24/08/2007: (Publicação de manifesto)De: Carlos Rubens de ResendeData: 08/16/07 02:23:38Para: O Globo Cartas dos Leitores
Assunto: Caos aéreo
Senhor Redator,
É preciso reconhecer que a perda de entes queridos pode ensejar reações pouco racionais de seus parentes e amigos. Sei disso porque perdi minha filha, com 16 anos de idade, em um dos muitos acidentes de carro nas madrugadas dos fins de semana do Rio de Janeiro. Nunca recebi de volta, nem procurei, nada que estivesse com ela. Mas aprendi que o tempo costuma cicatrizar feridas desse tipo e é lamentável que, 11 meses após o acidente da Gol, a representante dos parentes dos mortos no acidente assuma atitudes totalmente inadequadas em relação á FAB como, por exemplo, as seguintes perguntas, como divulgadas pela imprensa:
Pergunta – Não havia postos de vigilância no local?
Resposta – Como implantar postos de vigilância em uma área de 30 km de raio, em plena selva amazônica?
Pergunta – Não havia monitoramento à noite?
Resposta - Havia, sim, visando manter a segurança noturna do acampamento dos militares em meio às ameaças noturnas da selva.
Pergunta – Quem era o responsável pelos pertences?
Resposta – Os militares da FAB, sem nenhum tipo de recompensa, trabalharam dias infindáveis, em plena selva amazônica, sob calor e umidade intensos, procurando corpos em estado de decomposição para devolvê-los aos seus entes queridos. Como parte de seu trabalho, visando devolver aquilo que sobrou dos destroços a quem de direito, recolheu e entregou às autoridades policiais o que foi encontrado durante as buscas dos corpos. A FAB nunca se comprometeu a resgatar pertences de passageiros ou tripulantes nos acidentes onde o "Pára SAR" (sigla que significa pára-quedistas de busca e salvamento) é envolvido por obrigação com a comunidade brasileira e internacional.
Pergunta – Não havia guarda 24 horas por dia?
Resposta – Guarda de que? O objetivo era recuperar corpos espalhados por quilômetros quadrados por um avião que se desmanchou a alguns quilômetros de altura e espalhou pedaços de estrutura, corpos e pertences por quilômetros quadrados. Já no segundo dia de buscas, até parentes dos mortos já estavam no local, inclusive transportados pela FAB. Considerando que a região é habitada por índios e outros brasileiros, como evitar que alguém encontre um celular espalhado a mil metros de altitude por um avião se desmanchando incontrolavelmente? Experimente soltar um talão de cheques na cobertura de um prédio de 60 metros (20 andares) de altura e veja onde ele vai parar. Imagine a mesma coisa, a 1000 metros de altura, por exemplo, sobre a selva amazônica, partindo de um avião desgovernado!
Pergunta – Quem revistou as equipes de resgate?
Resposta – Revistar um militar que passou todo o dia em plena selva amazônica procurando corpos em decomposição para devolvê-los aos seus entes queridos, abrindo picadas na selva apenas pelo sentimento de dever cumprido é, no mínimo, uma indignidade por parte da pessoa que comanda o grupamento. Nenhum militar, que tenha um mínimo de consciência de suas obrigações perante sua pátria e seus compatriotas, é capaz de fazer ou determinar que se faça algo parecido.
Sei que esta mensagem é muito grande para ser publicada nas Cartas dos Leitores e não recebi procuração da FAB para defendê-la. Mas sei que o choro de um Oficial General da FAB mostrado nos jornais é uma demonstração da frustração de uma pessoa que conhece sua responsabilidade perante a sociedade brasileira e internacional, e que esperava, no mínimo, algum tipo de reconhecimento do trabalho realizado pelos seus homens.
Acrescente-se a esta frustração o processo de confrontação que o Congresso Brasileiro estabeleceu contra tudo que foi compromissado entre o Brasil e a Comunidade Aeronáutica Internacional ao divulgar dados confidenciais das "caixas pretas" do acidente do avião da TAM e a designação pelo governo brasileiro de mais um Ministro, mais um Presidente da Infraero e dos cinco (05) Diretores da ANAC, todos, sem exceções, totalmente ignorantes do que seja aviação e aeroporto civil e chegamos ao ponto em que estamos muito próximos de um caos total (o atual é "pinto").
Caso necessário, estou pronto a pagar pela publicação desta carta. Alguém precisa falar a verdade neste país. Os nossos Oficiais Generais, das três Forças Armadas, estão muito ocupados em conceder medalhas (e até postos da hierarquia militar) aos patifes da política brasileira.
Leblon, Rio de Janeiro, RJ 22430-070
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